''Fulano e Cicrana, se aceitam assim como são?''

Um amor de tule e cetim

 Das lembranças da infância, uma me é particularmente especial. É uma lembrança perfumada com água de flor de laranjeira ou um aroma mais exótico.Uma lembrança clean, coloquial, silvestre, romântica, glamourosa. Uma mistura de referências diluída no tempo...

Morávamos no sítio, onde a vida é mais comunitária. A fornada de pão, o porco na lata  os ovos de galinha. Essas coisas simples e caseiras eram repartidas com os vizinhos.


As festas? Ah, as festas... aniversários, bailes e casamentos. Eram festas familiares, mas a vizinhança era bem-vinda.
Velhos tempos, bons tempos.

Minha família em peso  íamos a essas festas, mas as que eu mais gostava eram as de casamento. Elas aconteciam à luz dos lampiões
, ao som das sanfonas,  num espaço chamado ''terreirão'', local onde se espalhava o café para ser rastelado e secar.


Como eu amava estar naquelas festas! Lembro-me de ficar espreitando a noiva, quase a perseguindo, atenta à oportunidade de tocar em seu vestido. Sim, tocar em seu vestido era a minha parte preferida da festa! Um dever quase sagrado, uma regra que justificava minha presença ali, um rito, um vislumbre.

Mas não era um simples toque. Era uma experiência sensorial. A textura do vestido, a cor, os bordados, o caimento – tudo isso era, para mim, quase um encantamento. Obviamente, eu não tinha muita referência ou informação sobre o que era considerado belo, usual ou conveniente para uma noiva. Independente disso, toda noiva, era de  altíssimo nível para mim!


Coisa de criança...ou não.

Achava toda noiva belíssima. Lembro-me de ouvir minha mãe dizer sobre mim: "Enquanto ela não toca no vestido da noiva, não conseguimos ir embora da festa."

 Já na adolescência, vivendo em outro contexto, as festas de casamento já não eram tão populares, foram ficando cada vez mais restritas e seletivas (superentendo).

 Mas, quem disse que eu deveria deixar de gostar da figura da noiva? Ninguém! E se dissesse, eu certamente não ouviria. Na verdade, muito mais do que gostar dos  vestidos de noiva, eu queria muito ser uma noiva. Ah, um dia eu seria!


E o meu vestido seria o mais bonito de toda a região, falariam dele por meses, copiariam por gerações, hahaha. 
Passei a colecionar recortes de revistas e jornais de vestidos de noiva. Quando dei por mim, estava desenhando vestidos de noiva.
Desenhando e sonhando, um sonho de tule e cetim.


Amor de juta e linhão 


Aqui um breve comentário sobre o desenrolar dos meus secretos planos para o "wedding day''. Eles fracassaram! 
Falo sobre isso com a maturidade necessária para não desejar nenhuma espécie de dó por minha pessoa – a noiva frustrada. 

Não aconteceu! Relações sucumbiram, projetos de vida foram interrompidos e eu nunca me tornei a "noiva" deslumbrante que sonhei desde a infância.

Ok. Estou ótima! E aqui, exatamente aqui, pontuo com clareza de entendimento sobre o que é, de fato, o casamento, no meu modesto entendimento.

Casei-me muito, mas muito tempo depois de já ter desistido da idéia. De uma forma que nunca havia imaginado. E completamente satisfeita com a minha realidade. 
Não usei vestido de noiva, não tive festa ao som de sanfona, nem  à luz de lampiões ,nem outra festa que ganhasse manchete ou fosse notícia nas redes sociais.

Nada de tule e cetim, nem  make de milhões. Somente cara, coragem e uma risadinha discreta no canto da boca, como quem dizia: ''Agora serei a senhora Machado, uhulll''💚💚


Nada contra quem faz grandes festas, desde que não gere transtornos financeiros ou grandes ilusões.
Nada contra cerimônias inesquecíveis, desde que sejam apenas um meio, não um fim. 
Mas tenho dito: o casamento começa depois que a festa acaba! E é para durar a vida toda. 

Dali em diante, nenhum glamour será capaz de sustentar uma relação cuja estrutura pede valores profundos. 
E no desenrolar da história, na vivência diária, vamos entendendo coisas que a inocência de um sonho ou as lentes de uma câmera não são capazes de capturar. 

Os entreveros de uma vida a dois, definitivamente, não são para amadores, mas para os que decididamente amam! 
E, contudo, meus quase onze anos de casada são os melhores anos da minha vida. 

Enfim, não sou coach matrimonial mas seguem algumas dicas que acredito promoverem excelentes resultados no casamento, seja ele de tule e cetim ou de juta e linhão.






Pitacos Rosé Gold ❀

Diálogo, o primeiro tijolo da casa.

Definitivamente, não é possível um relacionamento sem diálogo, mas não é qualquer diálogo. É aquela conversa que exige coragem e humildade para falar tanto quanto para ouvir. Senão, fica desonesto e não chegará a lugar nenhum. Por isso, conversem! A comunicação traz clareza e fortalece a união sempre!


A expressão do amor

Ouço muito dizerem que o amor tem linguagens específicas, há até livros sobre isso. Não vou entrar no mérito desses livros, mas creio que o amor se expressa em tudo o que fazemos, embora fique mais evidente em certos momentos. 


Gosto do cuidado, de pequenas atitudes cheias de gentilezas. As palavras, com seu poder, também devem ser observadas.

Seja presente! A presença verdadeira, que vai além de estar juntos em uma convivência automática, deve ser cultivada tanto nos momentos bons quanto ruins.

Seja parceiro(a)! A parceria, a cumplicidade, a convergência nas decisões e as renúncias constroem e são, também, linguagens do amor.


Casamento oficina do perdão

O perdão é sempre um recomeço. Esse campo é sensível, eu sei. Mas o perdão no casamento deve estar no modo automático todos os dias, tanto para pequenas aleatoriedades e bobagens quanto para algo mais difícil de processar. Queira perdoar, deseje perdoar, decida perdoar e conseguirá!

Calma aí! Não quero passar a imagem de uma santa perdoadora. Não vivo eufórica com essa ideia, ninguém vive! É muito para a cabeça e o coração  de pobres mortais, viver ardentemente desejosos de perdoar meio mundo todos os dias. Mas podemos estar decididos a isso, e então as coisas começarão a ficar mais fáceis.

Os sentimentos serão trabalhados, levados a uma lógica superior, divina, transcendental...

Sem ilusões

Entenda que o outro(a) ainda que tenha se vestido de tule cetim, na convivência irá tecer juta e linhão, irá vestir-se rusticamente.
E nesse momento, os votos precisam ser lembrados, como algo que não perde a validade, que não envelhece, que não teme o tempo e o desgaste.

A paixão tem medo do tempo, os artelhos 
tem medo do tempo, a pele, os móveis, os projetos, mas a aliança não.

Nunca o "na saúde e na doença; na alegria e na tristeza " fará tanto sentido, quanto depois de alguns anos de convívio. E cada vez mais fará sentido...
Tem que ser muito homem,  tem que ser muito mulher, para honrar o protocolo.

Na contramão

Quer ser feliz no casamento? Se arrisque a uma grande aventura: Feche os olhos e  vá na contramão do mundão e seus valores, e tudo vai dar certo!
Colunas fortes, base sólida e cobertura segura, não se adquire seguindo exemplos que já ruíram...

Muitas vezes não será compreendido,  mas será vitorioso. Será ridicularizado, mas sobreviverá!
Chesterton foi muito feliz ao citar em seu livro The Superstition of Divorce (A superstição do Divórcio) : " A sociedade nunca será  capaz de julgar o casamento.  O casamento julgará essa sociedade e possivelmente irá condená-la "

Bem, estas são algumas das minhas percepções ao viver a vida a dois. Sei que não é fácil,sei que não é simples.
Mas, sim , é melhor sermos dois do que um!💛💛

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