Submissão feminina: que missão é essa?

     A arte imita a vida ou vice-versa?



Jeanne , filha de aristocratas franceses, 
para agradar aos pais, casa-se com Julien, que se revela após o casamento, avarento e adúltero. Logo, Jeanne percebe que seu matrimônio foi um grande erro, pois Julien não demonstra mudança alguma em seu caráter promíscuo. Jeanne vai percebendo aos poucos que está presa em uma teia. Seu marido, sua melhor amiga, sua mãe e até seu próprio filho, tecem essa teia nefasta de traições e mentiras. A triste história se desenvolve, ora entre cenas primaveris e ensolaradas, ora entre invernos  sombrios e véus de profunda tristeza.

Jeanne mantém seu posicionamento passivo, esperando encontrar, se não uma saída, ao menos um sentido em toda aquela via, onde sua alma sangrava em silêncios absurdos. Entretanto, o desfecho deixa dúvidas quanto a isso. Pois Jeanne, após perder todo o patrimônio deixado pelos pais, se vê dependente da criada, que, por sua vez, não deixa muito claras suas intenções com sua patroa. Em alguns momentos, mostra-se solidária e prestativa, mas em outros parece conspirar. Há ali uma forte sugestão de que Jeanne seria, desta vez, vítima da empregada.

Envolta em tamanho sofrimento, Jeanne faz uma oração revelando o que há em seu coração, oração digna de um belo hino sacro: 

"Meu Deus todo-poderoso, quando procuro entendê-lo, sua grandeza me deslumbra. 
 Quando minha razão se ergue à sua infinitude, fico encabulada.
 Na dúvida e na escuridão vivo mergulhada. Mal posso vislumbrar na mortalha da noite uma centelha passageira que brilha e se apaga.
Ainda assim, tenho esperança. Pois, frequentemente, quando o dia amanhece triste e cinzento, quando não se vê nada além de sombras, um raio de sol escapa pelas nuvens, e aponta lá em cima, para algum ponto azul. 
Quando as dúvidas abundam e tudo parece obscuro, sobra sempre na alma um raio de esperança.''
                                                     ❀❀❀

Gosto de filmes de época, com boa fotografia, cenários bucólicos e, claro, enredo envolvente. 
Em "A Vida de uma Mulher''  Prime, a protagonista vive sucessivos fracassos familiares.

Seu papel, extremamente submisso, é, passivo diante dos horrores e omisso diante dos erros alheios, que se descortinam à sua frente, manhã após manhã, de estação em estação. 

Jeanne se acomodava dentro da caixinha que construíram para ela: educada, generosa, bem-intencionada... mas, vestida de trapos emocionais.

Penso que a aplicação da mais bela virtude deve ser revista se estiver causando amargura e incoerência. 
Entretanto, isso não significa ter de assumir a pior versão de si mesma para se defender. 

Os extremos costumam ser perigosos e, para evitar esse perigo, a temperança costuma ser uma boa conselheira. Aliás, a temperança é um belíssimo enfeite para uma mulher!    

Aqui me situo                                 

 
O que faz com que a submissão deixe de ser algo saudável e equilibrado e passe a ser dor, tristeza e frustração?

 Qual é o momento em que a submissão deixa de ser virtude e passa a ser conivência com os erros e pecados dos outros? 

Refletindo sobre este filme, penso que na vida real existam muitas ''Jeannes'', vítimas de circunstâncias familiares, culturais ou religiosas. 

Muitas não têm o poder de decisão nem sobre com quem vão se casar.

Se a escolha (não delas) foi bem-sucedida, digamos, 
uma boa escolha, maravilha, vida que segue.

Mas, se não...
Uma vez casadas e sem autonomia, ficam suprimidas em sua liberdade e voz. Acostumam-se tanto com esse estilo de vida que o sofrimento as torna mártires convictas, com muito orgulho (ou não).
Delicado. 

Mas nem sempre a cultura, a religião ou a influência familiar são pano de fundo de uma história dessas. 
Há casos de espontânea passividade. 

Trata-se de uma zona de conforto (se é que se pode chamar assim ) onde o medo se disfarça de paz, a anulação de amor, e uma certa “preguiça” de mudar as coisas se tornam o carimbo para a continuidade dessa triste saga.


A outra ponta da fita      

A submissão feminina é um assunto polêmico. Muitas mulheres rejeitam veementemente essa possibilidade, por acharem que é uma humilhação. 

Todavia, uma mulher autoritária, obstinada e egocêntrica no casamento é tão desastrosa quanto uma submissa cega. 
Muitas vezes, querem justificar esse comportamento alegando a falta de atitude  e ou, hombridade do marido. 

Porém, aí entra outro critério, que necessita elevar o debate a um contexto específico e tão sério quanto. 
Casamento é partilha de vida, de sentimentos e ideais.
Para que direção caminharia um relacionamento onde não há prumo?

 A submissão feminina não deve ser vista de forma isolada; ela coopera com o todo e não diminui o valor da mulher. 

Em linhas gerais, a submissão consciente protege o casamento de muitos desgastes.
Quando a mulher entende que não é sobre medir forças e que essa entrega não é sinal de fraqueza, mas de sabedoria, ela se torna muito mais forte do que supõe qualquer ideologia. 
 


Eu, por exemplo, me considero submissa ao meu esposo. 
Essa submissão, contudo, não me coloca em estado de humilhação ou desigualdade, nem me oprime. 

Se assim fosse, não seria a submissão que capacita ao respeito, amor e cuidado mútuo, que é o principal propósito da submissão no relacionamento conjugal. 

Ela é coerente, produz harmonia, não guerra; união, não divisão. 

É tão bom caminhar lado a lado! Nem à frente, nem atrás, mas, como cúmplices e parceiros. 
A submissão não cala a minha voz, ela a refina.






Pitacos Rosé Gold     
           

Tête-à-tête

-O diálogo sincero e desarmado ainda é um caminho para a resolução dos conflitos nas relações. 

-Casais, pais e filhos, irmãos ou simplesmente amigos: todos estamos sujeitos a alguns desarranjos na convivência.

-A intimidade revela as mazelas nossas de cada dia. E sobreviver à elas é o grande desafio.
Como é fácil amar quem está longe, quem não nos provoca. O elogio, a saudade e a tolerância parecem tão fáceis.
Mas quando tudo isto é posto à prova na convivência, é preciso maturidade e coração disposto a solucionar as crises.

-Não desista do diálogo; parece clichê, mas não é, é ouro bruto.
É o campo onde se esclarecem as coisas e se estabelecem novos pactos, objetivos e limites.
Além disso, ninguém poderá acusá-la(o) de não ter tentado conversar.

Não terceirize as suas decisões

-Pedir e ouvir conselhos, ainda mais de pessoas confiáveis, é sempre bom e, às vezes, faz toda a diferença.
Entretanto, as decisões mais importantes devem ser sempre suas. Não entregue essa responsabilidade a ninguém, nem tampouco aceite que manipulem suas decisões.

-Manipuladores agem conforme seus próprios interesses; não se interessam pelos seus problemas.
Questão de escolha
 
-Cultive valores que a (o) ajudarão a discernir situações e a decidir com clareza as melhores atitudes.

 -Atenção para os círculos viciosos! Erros recorrentes são escolhas, não deslizes. 
Então, também escolha: escolha se amar, se escutar, se respeitar. 

-Não normalize o desrespeito, a toxicidade.
Ainda que todos nós em algum momento iremos manifestar algum grau de toxicidade, isto não deve ser um padrão de relacionamento.

A toxicidade deve ser combatida , quer em nós ou no outro, e combatida com o antídoto da coerência, do amor . 
Não deixe virar hábito. É mais fácil tratar no início!
Nossa missão na vida real
-Vamos continuar insistindo na restauração dos relacionamentos fraturados, porém, sem colocar sobre ninguém o peso de suportar o que é verdadeiramente insuportável. 
Aqui se faz necessária uma análise minuciosa. Não sejamos hipócritas. 

-Ame sem moderação, mas não perca a noção. O amor é sofredor, mas tem que fazer sentido, pois anda acompanhado das melhores virtudes. 
E há uma variedade de coisas que ele não tolera. 

-Vamos lá?
O amor não maltrata; não difama; não se ira; não se orgulha; não se alegra com a injustiça. 


Essas são algumas das minhas conclusões ao analisar um filme de ficção e perceber que há muita realidade nele. 
Sim, a arte imita a vida, mas, se for para a vida imitar a arte, que seja uma arte louvável. 

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